Paradigmas sociais #3: Sou gorda e feliz – na mesma frase.

img_3132Sempre fui uma pessoa muito comunicativa e que tinha amizade com todos na escola, mas isso mudou a partir do momento em que meu corpo foi mudando.

Antes eu era magra, do tipo esquelética, e era rodeada de amigos. Entretanto, aos doze anos de idade, tive sérios problemas de saúde que, com a necessidade de serem tratados com diversos medicamentos, me fizeram ganhar peso rapidamente. Perdi os “amigos” na mesma velocidade que ganhei peso. Fui de 40kg para 50kg, 60kg, 80kg, 90kg muito rápido, eu tinha vergonha de me pesar e, perante o afastamento daqueles que eu acreditava serem meus amigos, não me aceitei. Todos ao meu redor cobravam por uma perda de peso minha mas ninguém me ajudava, ninguém perguntava se eu estava bem. Eu era adolescente, estava com minha mente e meu corpo em desenvolvimento, vi a escola inteira me julgar, inventar mentiras ao meu respeito e me ofender sem motivos, somente por ser gorda. Tudo o que eu tinha construído até os doze anos de idade foi desconstruído a partir do momento em que eu engordei.

Eu passei a ter vergonha da transformação progressiva que meu corpo sofrera. Ia de blusa de frio para a escola todos os dias, fizesse chuva ou sol, na tentativa de esconder o meu corpo, as minhas gorduras, o meu peso. Às vezes a temperatura estava 40°C e as pessoas perguntavam se eu estava com calor, eu dizia que não, que estava bem com aquela blusa grossa. Eu mentia e sorria fingindo estar tudo bem. Me tornei uma pessoa retraída e de poucos amigos, me aproximava somente daqueles que eu sentia me aceitarem gorda. Minha vida era usar preto na tentativa de parecer menos gorda e passar despercebida. Passei anos fugindo da balança e quando finalmente resolvi subir em uma, aos quinze anos, eu estava prestes a completar o terceiro dígito naquele visor. Entrei em pânico, fiquei muito triste e sem saber o que fazer, chorei e muito. O que é que eu ia fazer da minha vida pesando 100 kg com essa idade?!

A minha vida sofreu uma pequena mudança quando eu passei para o Ensino Médio e tive que mudar de escola. Lá, na nova escola, tinha pessoas diferentes e novas que não sabiam quem eu era e como eu era no passado, então, se gostassem de mim seria pelo que eu era naquele momento. Uma garota obesa. Até que deu certo, comecei a fazer novas amizades e me divertir com elas, parecia que elas gostavam de mim daquele jeito e isso me deixava feliz.

Tenho a vaga lembrança de ter sofrido bullying somente uma vez naquela nova escola. Se teve mais vezes eu não percebi ou ignorei, pois a maioria daquelas pessoas só estavam ali para “se divertir” e eu estava para estudar, tinha o meu foco. Além do mais, aquelas pessoas não sabiam o motivo de eu ser gorda. Então, pra mim, a opinião delas não importava. Porém, eu lembro exatamente quem foram as pessoas que mais me ofenderam e que fizeram piadinhas relacionadas ao meu peso. Essas pessoas estavam ao meu lado sempre, sabiam tudo o que eu tinha passado e também tinham o mesmo sangue que eu. É, o maior bullying veio da minha família. Eu me lembro muito bem.

Essas pessoas que passaram pela minha vida me fizeram acreditar durante anos que eu precisava ser magra para ser feliz e aceita pela sociedade. Elas eram pessoas tóxicas e que me reprimiam o tempo todo, eu era gorda e só podia usar roupas no estilo burca, folgadas na minha silhueta, para não exibir o meu corpo e ofender alguém. Roupas pretas eram as mais adequadas para o meu corpo gordo, pois essa era uma cor que, aparentemente, emagrecia. Elas me julgaram o tempo todo e se mostravam preocupadas com a minha saúde sem ao menos perguntar se estava tudo bem comigo e se eu precisava de algum tipo de ajuda. Muitas vezes eu precisei de ajuda mas não tive ninguém, além da minha mãe, ao meu lado. Muitas vezes eu chorei, na tentativa de sanar a dor que eu tinha por não poder usar aquela roupa linda que todas as garotas da minha idade usavam e que só de olhar eu sabia que não entraria nem na minha coxa gorda. Muitas vezes eu me rejeitei, me julguei, mesmo sabendo o quão guerreira eu era por ter superado coisas piores na minha vida. Essas pessoas invadiam a minha mente, deturpavam a minha visão e faziam eu ter vergonha de me olhar no espelho. Eu tinha vergonha do meu corpo e de tudo em mim. Eu não podia ser gorda e feliz ao mesmo tempo, usar essas duas palavras na mesma frase era quase uma afronta e uma enorme contradição. Eu não podia ser gorda. E nem feliz.

Hoje, doze anos após os meus problemas de saúde terem surgido e eu ter ganho dezenas de quilos com os remédios dos tratamentos, eu continuo gorda e, posso dizer com todas as letras – na mesma frase com plena certeza –, sou F E L I Z! Sim, sou gorda e feliz, feliz e gorda. Na mesma frase.

O tempo me fez ver que eu sou uma pessoa maravilhosa e muito superior a todos os comentários degradantes que pude ouvir durante o tempo que me mantive calada. Suportei olhares depreciativos e que se achavam dignos julgadores. Me sujeitei às ofensas da sociedade.

Com o tempo e com as pessoas maravilhosas que entraram na minha vida ao longo desses anos, eu descobri que eu não precisava ter me submetido a tantas repulsas contra o meu próprio corpo e a tantos complexos sociais para ser aceita e feliz. Passei anos cega, rejeitando a mulher mais incrível e dona do sorriso mais lindo do universo. Eu. Me descobri, olhando no espelho, uma mulher maravilhosa, que merece respeito e todo o reconhecimento por ser quem é. O meu corpo, cheio de curvas esbeltas, pode ser exposto para a sociedade sim e não ofende ninguém. O preto é uma cor linda, mas o meu corpo também merece ser contemplado por todas as cores existentes.

Anúncios

3 comentários

  1. É realmente difícil quando você não se sente aceito pelas pessoas ao seu redor, amigos, família. Você acaba descobrindo que só tem duas saídas, absorver as coisas ruins e se tornar uma pessoa mais amarga como todas as pessoas que te julgam são, ou relevar os comentários e tentar ser feliz da forma que você é, independente do que dizem. Eu fico feliz quando vejo as pessoas seguindo o segundo caminho, se aceitando apesar de o mundo lá fora dizer o contrário. As pessoas acabam por esquecer o que realmente importa, quem você é. Isso sim é importante.
    E você é uma garota maravilhosa, merece tudo de melhor nessa vida, merece ser feliz do jeito que é, independente do tamanho da roupa que veste, a verdadeira beleza de uma pessoa se encontra na alma. Além disso, concordo com o texto em mais uma parte, você tem um sorriso lindo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s